The Only True Protest is Beauty / Fundação Dries Van Noten
- Beth Venzon

- há 1 dia
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Veneza é uma cidade a ser descoberta a cada viagem. História, arte, arquitetura, paisagens, lugares, pessoas. Legados imensos e iniciativas que encantam e ampliam o olhar, conhecimento incentivando a criação.
O endereço de hoje é o Palazzo Pisani Moretta, localizado no Grande Canal de Veneza. Uma referência da arquitetura gótica veneziana o qual passou por muitas intervenções, mas teve um período considerado dourado no início do século 17 e uma transformação audaciosa interna no estilo Rococó no século 18. Entre os artistas, obras e os mestres venezianos Jacopo Guarana, Giuseppe Angeli e Giovanni Battista Tiepolo. Tiepolo tem sala própria com afrescos deslumbrantes capturando nosso olhar e dialogando com a arquitetura e as obras da exposição: O Único Protesto Verdadeiro é Beleza.
Antes de contar sobre a mostra gostaria de salientar que esta é iniciativa do designer Belga Dries Van Noten, o qual adquiriu o prédio em 2025 junto com seu sócio Patrick Vangheluwe com o objetivo de transformá-lo em um espaço dedicado à arte, ao artesanato e ao diálogo cultural. Agora passa a abrigar a Fundação Dries Van Noten.
Dries Van Notem sempre foi um apaixonado por arte, história, arquitetura, tecidos, mobiliário, jardins, pessoas e lugares sendo descobertos a partir do seu estudo, olhar atento e cuidadoso. Bordados com a beleza de brilhos e mix de elementos, a beleza artesanal e cromatismos sempre foram seu foco. Referenciais traduzidos sabiamente em criações espetaculares ao longo de 4 décadas de 1986 até 2025, quando deixou a direção criativa de sua marca homônima e iniciou um novo capítulo em sua vida profissional nos proporcionando um espaço dedicado ao estímulo e incentivo criativo.
E assim, em abril de 2026, as portas do Palazzo Pisani Moretta se abrem para apresentar uma grande exposição dedicada à beleza como catalisador de provocação e transformação. São dois andares somados ao térreo. Jardim para contemplar a delicadeza de uma entrada que nos leva para a obra The Blind Leading the Blind #48 de Peter Buggenhout, obra monumental que afirma a beleza como exigência emotiva e tensão provocativa. Ao fundo o Grande Canal com espaços para admirar a icônica cidade.

A exposição é um diálogo com diferentes expressões através de mais de 200 objetos entre moda, joalheria, vidro e fotografia. Revelam a dimensão humana do criar, distribuídas estrategicamente pelos espaços que sinceramente nos convidam a permanecer muito tempo por lá e ver várias vezes toda a narrativa desenhada entre as peças. Uma curadoria impecável, instigante e muito importante de de Dries Van Noten com Geert Bruloot.
O Palazzo é parte integrante, é parte ativa proporcionando diálogos entre formas e histórias, entre tempo e conceitos, onde a beleza não é ideal estático, mas presença que questiona. Percepção aguçada que desperta entre criações e legados de técnicas que ganham novos caminhos e expressões.
A cada sala um tema e para cada tema abrem-se conexões, onde certezas não cabem, mas novos olhares para o que significa beleza.

A primeira sala abre-se à nossa frente após uma série de degraus belíssimos que atravessam os séculos. Aqui portas amplas e espaço idem nos recebem para o tema principal: A Vitória da Luz sobre as Sombras. Um retrato monumental de Steven Shearer domina a entrada e evoca um estado de paz profundo e ao mesmo tempo uma gélida mortalidade. A penumbra se estende com criações de Comme des Garçons, Rei Kawakubo em silhuetas arquitetônicas e Christian Lacroix com o look icônico de 1988 com uma cruz que foi capa da Vogue e sinalizou grandes mudanças na moda. Aos poucos a luz vai ganhando espaço redefinindo volumes, texturas, imagens como a escultura de Kate MccGwire como uma nuvem e mais criações de Comme des Garçons em suave luz num caminho de reencontro com olhar otimista, mostrando uma beleza de forças opostas.

Quando as cores falam e se tornam linguagem visceral, abre-se uma nova perspectiva. Um vestido azul de Christian Lacroix e retratos de Steven Shearer estão expostos no contraste de uma parede vermelha, assim como as perucas de Comme des Garçons da sala 03 do primeiro andar.
O núcleo considerado de impacto emocional do espaço está na obra de Joyce J. Scott concentrando a luminosidade que se fortalece no vidro como matéria-prima, um narrativa de resiliência que é emoldurado pelos contratantes texturas de cristais artificiais de Issac Monté e nas explosões compositivas de cerâmicas azuis e douradas de Virginia Leonard.
O passeio pela exposição é fascinante. Convida a permanecer, a descobrir, a voltar. Arte, design, moda numa interação nunca vista em suas composições. Desafios de cada espaço temáticos instigantes e cuidadosamente pensados.
Minha vontade de contar a vocês sobre cada um dos temas, mas são muitos. Ainda agora continuo com as imagens presentes dessa experiência que valeu cada minuto.
Concluo com a sala 14 do segundo andar onde Caos e Ordem entram em cena com assemblagens de Peter Buggenhout e as obras multiformes de Misha Kahn cujos elementos dispares encontram harmonia inesperada. O próprio vestido de noiva de Christian Lacroix entre rendas e joias se transforma numa densa profusão de tecidos resultando numa criação perfeitamente organizada,
Quanta beleza! Quantas formas de ver e compreender o momento que vivemos: fluido, múltiplo em suas expressões e infinitas possibilidades de caminhos da beleza em seus elementos singulares. Como dizia Charles Bauldelaire: o belo é sempre bizarro. Não digo que seja voluntariamente... digo que contém aquele pouco de estranheza que o faz ser particularmente Belo.

Espero que tenham gostado desse passeio que amei compartilhar, ao menos parte dele com vocês.
Com certeza será a primeira das muitas ações que acontecerão a partir de agora.
Deixo aqui o @fondazionedriesvannoten para acompanharem de perto a programação e se estiverem em viagem por lá até 04 de outubro de 2026 fica o convite para visitarem a exposição.
Um beijo,
Beth Venzon


































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