Georg Baselitz: Além da Figura

Dois encontros em Veneza com um dos artistas que transformou nossa maneira de olhar a pintura.

Uma pintura de Georg Baselitz foi um dos grandes destaques da Art Basel Paris 2026. Apresentada pela galeria Hauser & Wirth, Der Hirte (O Pastor), de 1965, foi negociada por aproximadamente US$ 10 milhões, figurando entre as vendas mais expressivas da feira.
A notícia reafirma o reconhecimento internacional de um dos grandes nomes da arte alemã do pós-guerra. Baselitz construiu uma trajetória marcada pela experimentação e por uma maneira singular de investigar a figura humana, desafiando continuamente os limites entre figuração e abstração.
Nascido na Alemanha, em 1938, o artista tornou-se conhecido especialmente a partir de 1969, quando começou a pintar suas figuras de cabeça para baixo. Mais do que uma provocação, essa inversão deslocava a atenção do observador para a pintura em si: suas cores, pinceladas, composição e matéria.
Baselitz morreu em 30 de abril de 2026, aos 88 anos, poucos dias antes da abertura da 61ª Bienal de Veneza. Naquele período, a cidade apresentava duas exposições que permitiam conhecer diferentes momentos de sua produção.
Durante minha passagem por Veneza, visitei ambas e me chamou especialmente a atenção como um mesmo artista podia apresentar linguagens tão distintas, mantendo a figura humana como ponto central de sua investigação.
Palazzo Grimani: entre o retrato e a abstração
No magnífico Palazzo Grimani, a série Archinto, apresentada originalmente em 2021, estabelece um diálogo surpreendente entre a pintura contemporânea e a tradição renascentista.

A história dessa intervenção é especialmente interessante. Na Sala del Portego, doze molduras ornamentais do século XVIII permaneciam vazias, nos espaços anteriormente ocupados por retratos da família Grimani.
Baselitz foi convidado a criar novas pinturas para essas molduras e desenvolveu doze obras nas quais a figura humana aparece fragmentada, distorcida e, por vezes, quase imperceptível.

Pinceladas gestuais, manchas, transparências e sobreposições aproximam essas imagens da abstração. É preciso observar com atenção para descobrir os vestígios de corpos e rostos que emergem da pintura.
O título Archinto faz referência ao retrato do cardeal Filippo Archinto, realizado por Ticiano em 1558, no qual parte da figura aparece encoberta por uma cortina translúcida.
Outro aspecto singular é o acordo de empréstimo de longa duração, realizado com a participação da Gagosian, da Venetian Heritage e das instituições culturais italianas. As doze pinturas permanecerão no museu até 2030, estabelecendo um diálogo duradouro entre arte contemporânea e patrimônio histórico.

Fondazione Giorgio Cini: os últimos gestos
Na ilha de San Giorgio Maggiore, a exposição Eroi d’Oro (Heróis de Ouro), realizada em parceria com a galeria Thaddaeus Ropac, apresentou as últimas pinturas de Baselitz.

Aqui, encontramos uma linguagem bastante diferente.
Sobre grandes superfícies douradas, figuras humanas parecem flutuar, construídas por linhas delicadas e expressivas, quase como desenhos realizados diretamente sobre a tela.

Baselitz utiliza tinta preta diluída, próxima à aparência do nanquim, em diálogo com a caligrafia japonesa e os desenhos de Hokusai. Em algumas obras, pinceladas mais espessas acrescentam textura e densidade à superfície.
Os fundos dourados remetem aos ícones bizantinos e à pintura medieval, mas ganham uma interpretação contemporânea. Ao eliminar a profundidade, o artista transforma os corpos em presenças suspensas, sem um espaço definido.

Entre essas figuras estão autorretratos e imagens de Elke, sua esposa e companheira de vida. Corpos envelhecidos e vulneráveis revelam uma reflexão sobre o tempo, a memória e a condição humana.
A exposição adquiriu um significado ainda maior com a morte do artista, apenas seis dias antes de sua abertura. Baselitz já havia declarado que considerava aquelas pinturas uma espécie de síntese de seus mais de sessenta anos de produção.
Além da figura
O que mais me impressionou ao visitar essas duas exposições foi perceber como Baselitz conseguiu reinventar continuamente sua linguagem.
No Palazzo Grimani, a figura quase desaparece entre gestos e manchas de tinta. Na Fondazione Giorgio Cini, ela reaparece em linhas delicadas, sobre superfícies douradas, carregando a experiência do tempo.
São duas maneiras distintas de investigar uma mesma questão: até onde a pintura pode transformar nossa percepção da figura humana?
A venda milionária em Paris confirma a força de seu reconhecimento no mercado internacional. Mas seu verdadeiro legado está na liberdade com que atravessou mais de seis décadas de produção, questionando convenções e descobrindo novas possibilidades para a pintura.
Georg Baselitz nos mostrou que, na arte, a figura humana pode ser muito mais do que aquilo que nossos olhos reconhecem.


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